Preparar a consulta gastro: o relatório PDF lido
O seu gastro tem 15 minutos. O que ele quer mesmo ver não são 30 páginas de notas — é uma cronologia quantificada dos sintomas e das correlações. Modo de utilização.
A diferença entre o que leva e o que ele gostaria de ver
Chega à consulta com um caderno, fotografias de refeições, talvez um ficheiro de notas. Conta aquilo de que se lembra: « há duas semanas tive uma crise forte, acho que talvez tenha sido a lactose ». O gastroenterologista acena com a cabeça, anota algo, faz três perguntas de enquadramento, e a consulta desliza para temas genéricos. Sai de lá com uma recomendação FODMAP padrão e a sensação de ter sido ouvido a meias.
O problema não é o médico. O problema é o formato. Uma consulta de gastro dura em média 15 a 20 minutos. Reconstruir 60 dias de histórico de memória é impossível nesse intervalo — e a memória recente sobrepõe-se sistematicamente aos padrões de fundo. Do lado do doente, o episódio doloroso de ontem à noite apaga 30 dias de observações tranquilas.
« 12 anos a ser mandada para casa sem resposta »
— Testemunho de doente com SII, fórum anglófono
A questão não é ter mais dados. É apresentar os que tem num formato que um profissional de saúde consiga ler em 30 segundos.
O que o seu gastro quer mesmo ver
A partir das recomendações da SNFGE (Sociedade Nacional Francesa de Gastroenterologia) e da prática corrente em consulta de SII, eis as 4 categorias de dados que realmente orientam uma consulta.
1. Uma cronologia dos sintomas, não uma lista de episódios
Em quantos dias dos últimos 30 teve dores? Com que intensidade média? O trânsito intestinal é maioritariamente diarreico, obstipado ou alternado? É essa imagem agregada que o gastro procura para orientar para SII-D, SII-C ou SII-M (misto). Uma simples curva de frequência vale por 10 anedotas.
2. A escala de Bristol para a consistência das fezes
A escala de Bristol (1 a 7, do muito duro ao totalmente líquido) é o instrumento padrão de classificação do trânsito. Se o seu diário registar uma média de Bristol por dia, o seu gastro vê o padrão de imediato. Tipo 1-2 dominante = obstipação. Tipo 6-7 dominante = diarreia. Alternância = SII-M. É a primeira pergunta que ele lhe fará se não tiver a resposta diante dos olhos.
3. As correlações alimentares prováveis (com nível de prova)
« Acho que é a lactose » não é um dado utilizável. « Ao longo de 60 dias, os dias em que consumi lactose têm 2,3 vezes mais crises do que os dias sem, p=0.02 » já é. Um cálculo de correlação estatística simples (teste de Fisher, por exemplo) transforma uma impressão numa hipótese testável. O seu gastro poderá então decidir um protocolo de eliminação dirigido, em vez de um FODMAP genérico.
4. O contexto não alimentar
O stress, o sono, o ciclo menstrual e a atividade física modulam fortemente o SII. Se os seus piores dias coincidem com as semanas de prazos apertados ou com a fase pré-menstrual, não se trata de um fator desencadeante alimentar — e esquecê-lo leva a dietas restritivas inúteis. Mencionar estes fatores na consulta orienta o diagnóstico diferencial.
Os 4 erros clássicos do diário alimentar
Erro 1 — O diário demasiado detalhado
30 páginas manuscritas com horários precisos, grama a grama, fotografias. Ninguém vai ler isso numa consulta. Um gastro precisa do agregado, não do bruto. Se quiser documentar ao pormenor, guarde-o para si — mas prepare uma síntese de 1 página para a consulta.
Erro 2 — O diário incompleto
10 dias de observações entusiásticas no início, depois nada durante 3 semanas, e um repente na véspera da consulta. Este padrão é extremamente comum. O problema: os padrões de fundo exigem pelo menos 30 a 60 dias de dados contínuos para emergirem estatisticamente. Mais vale 30 dias simples do que um mês exaustivo seguido de três meses vazios.
Erro 3 — « Acho que talvez seja… »
O autodiagnóstico alimentar cai na armadilha dos enviesamentos cognitivos. Sobrestimam-se os alimentos « suspeitos » (lactose, glúten, refrigerantes) porque estão culturalmente associados a problemas digestivos, e subestimam-se os frutanos (alho, cebola, trigo), que são amplamente subdeclarados. Um estudo IBS Patient Survey 2022 mostrou que os alimentos que os doentes julgavam ser desencadeantes não apareciam no top 10 dos seus piores dias objetivos.
Erro 4 — O diário narrativo em vez do diário estruturado
« Ontem de manhã dormi bem, depois tomei um café e a seguir, no escritório, fiquei com dores de barriga por volta das 14h. » Este formato conta uma história mas não se cruza com nada. Para que um padrão emerja, são precisos campos: refeição (composição), hora, sintomas (tipo + intensidade 0-10), Bristol, sono, stress 0-10. É fastidioso de fazer à mão — é exatamente o que uma app estrutura por si.
Preparar a consulta: 3 perguntas a fazer a si mesmo
1. O que quero obter desta consulta?
Um diagnóstico diferencial (excluir DII, doença celíaca, SIBO)? Uma orientação para um protocolo FODMAP acompanhado? Uma avaliação da eficácia de um tratamento em curso? Sem um objetivo claro, a consulta desliza para conselhos genéricos. Anote o seu objetivo numa frase antes de entrar.
2. Quais são os meus 2 ou 3 padrões mais salientes?
Não 15. Dois ou três. « Os meus dias com pão branco têm mais inchaço do que os outros. As minhas semanas de stress têm 3 vezes mais crises. » Se chegar com estas duas frases quantificadas, estrutura a consulta em vez de a sofrer.
3. O que é que NÃO sei e gostaria de saber?
Uma consulta útil termina com perguntas respondidas, não com uma nova receita. Devo fazer um teste respiratório à lactulose para o SIBO? As minhas dores noturnas são compatíveis com um SII funcional ou é preciso explorar mais? Anote as perguntas com antecedência.
Como a Nutae estrutura tudo isto
A Nutae é uma app móvel de diário alimentar concebida para pessoas com SII e desconforto digestivo recorrente. Regista as suas refeições e sintomas em 30 segundos por entrada, a app calcula as correlações estatísticas (teste exato de Fisher + correção de Benjamini-Hochberg para limitar os falsos positivos) e gera, quando pedir, um relatório PDF formatado para consulta.
- **Síntese de 1 página** legível em 30 segundos: perfil sintomático, top 3 correlações prováveis, média da escala de Bristol.
- **Cronologia detalhada** sobre 14, 30, 60 dias ou período personalizado.
- **Correlações quantificadas** com p-value e nível de prova, nunca formuladas como um diagnóstico.
- **Formato clínico**: sem emojis, sem gamificação, com tabelas e gráficos de tendência.
- **PDF padrão** partilhável por email ou portal do doente.
Limites — quando um diário não chega
O diagnóstico diferencial do SII é exigente. É preciso excluir as doenças inflamatórias crónicas do intestino (DII: Crohn, colite ulcerosa), a doença celíaca, o SIBO (small intestinal bacterial overgrowth), a intolerância à lactose isolada e, mais raramente, o cancro colorretal. Nenhuma app faz este diagnóstico — é exclusivamente o papel do seu gastroenterologista.
O relatório PDF da Nutae é um suporte de discussão, não um dispositivo médico. As correlações que evidencia são hipóteses a confirmar na consulta, não prescrições. A Nutae não estabelece qualquer diagnóstico nem propõe qualquer tratamento.