Método Nutae

Identificar os desencadeantes do SII (estatística)

«Acho que é a lactose» é uma hipótese, não uma prova. Eis como sair do binário perceção / proibição graças a um método estatístico honesto.

«12 anos à procura dos meus desencadeantes, sem nunca ter a certeza»

Se está a ler este artigo, provavelmente já experimentou tudo. Retirou o glúten durante 3 semanas. Depois a lactose. Acusou a cebola, o alho, o café, o stress, o seu período menstrual. Manteve um caderno em papel durante 2 meses e acabou por abandoná-lo porque não lhe dizia nada de claro.

E, no fundo, sabe que anda às voltas. Um dia o queijo passa sem problema, no dia seguinte deixa-o de rastos. Acabou por concluir que é aleatório, ou que é da sua cabeça.

Porque é que a sua perceção se engana (e porque é que não é culpa sua)

O cérebro humano é uma máquina de fabricar causas. Quando surge um sintoma, procura imediatamente o culpado nas horas anteriores. É aquilo a que se chama o viés de disponibilidade: retemos o que reparámos e esquecemos todo o resto.

Consequência: acusa o alimento marcante da véspera (o queijo, o prato picante, o copo de vinho) e ignora os outros 5 alimentos presentes na refeição. Pior, esquece todos os dias em que comeu esse mesmo queijo sem qualquer reação.

Os alimentos presentes nos meus piores dias de sintomas apareciam muitas vezes na lista dos meus «melhores dias».

— Utilizadora da Cara Care, testemunho publicado em 2024

É exatamente este o problema: as apps de grande consumo mostram «tendências» logo a partir de 3 ocorrências. Três vezes em 60 refeições não é uma correlação. É ruído. Mas é suficiente para o levar a eliminar um alimento por engano durante 3 meses.

O método estatístico: Fisher, Mann-Whitney, BH-FDR

Em vez de mostrar uma tendência logo a partir de 3 ocorrências, uma análise honesta coloca uma pergunta precisa para cada alimento ou categoria de etiqueta: a probabilidade de ter um sintoma é significativamente mais elevada quando este alimento está presente, em comparação com os dias em que está ausente?

Teste exato de Fisher — para os eventos binários

Quando nos perguntamos «tive ou não uma crise?» depois de comer determinado alimento, o teste exato de Fisher compara duas taxas: a taxa de crise nos dias «com» face à taxa de crise nos dias «sem». Calcula a probabilidade de a diferença observada se dever ao acaso.

Em concreto: se comeu lactose 20 vezes em 60 dias e teve sintomas 8 dessas 20 vezes, contra 3 vezes nos 40 dias sem lactose, o Fisher diz-lhe se essa diferença é estatisticamente credível — ou se 3 face a 8 com estes números pode muito bem acontecer ao acaso.

Teste de Mann-Whitney — para as intensidades

Uma crise não é apenas «sim/não». Tem uma intensidade (numa escala até 10, por exemplo). O Mann-Whitney compara a distribuição de intensidade dos dias «com» e «sem» um alimento. Revela desencadeantes que não alteram a frequência das crises mas agravam a sua gravidade.

Correção de Benjamini-Hochberg (BH-FDR) — para evitar os falsos positivos

Quando se testam 30 alimentos em paralelo, há forçosamente 1 ou 2 que surgem como «significativos» por puro acaso. A correção de Benjamini-Hochberg ajusta os limiares para controlar a taxa de falsas descobertas (FDR). Sem ela, acusamos 1 ou 2 alimentos inocentes em cada análise.

Sair do binário: provas fortes, moderadas, a confirmar

Depois de passar os testes, cada desencadeante potencial recebe um nível de prova. Não um veredicto binário «culpado / inocente», mas uma leitura honesta do que os dados dizem num dado momento:

  • **Prova forte** — a associação é estatisticamente robusta e sobrevive à correção multi-testes. Pode razoavelmente experimentar eliminar este alimento durante 2 a 4 semanas para confirmar.
  • **Prova moderada** — o sinal está presente, mas pode estar ligado a um cofator (outro alimento muitas vezes associado, contexto, stress). A vigiar, a não eliminar às cegas.
  • **A confirmar** — ainda não há dados suficientes. Continuar a observar. Sem ação.
  • **Nenhum sinal** — no período analisado, nada se destaca do ruído. Boa notícia: é um alimento que provavelmente não merece a sua energia mental.

É exatamente o inverso do «modo vermelho / modo verde» das apps de grande consumo. A realidade de um SII é um gradiente. Um alimento pode ser um desencadeante 60 % das vezes, ou apenas quando combinado com outro, ou apenas em determinada quantidade.

Limites e precauções

Uma correlação estatística não é uma causa. Mesmo um resultado «prova forte» pode refletir um cofator que não registou (stress, sono, ciclo hormonal, contexto da refeição). A decisão de eliminar de forma duradoura um alimento deve ser tomada com um gastroenterologista ou um nutricionista qualificado.

Antes de qualquer protocolo de eliminação, um diagnóstico diferencial é essencial: DII, doença celíaca, SIBO, intolerância à lactose isolada. Estas patologias tratam-se, e os seus sintomas podem imitar os do SII.

Se está grávida, com baixo peso, ou faz um tratamento medicamentoso: não altere a sua alimentação sem acompanhamento profissional.